2006-03-29

Memória de curta duração e memória puramente preservativa

Ao menos desde novembro, quando li o capítulo "Memory" do livro Epistemology and cognition, de Alvin Godman, eu tinha o palpite que a noção burgeana de memória puramente preservativa poderia ser reduzida à noção de memória de curta duração ou memória de trabalho, oriunda da psicologia cognitiva, da neuropsicologia e da neurobiologia. Agora vejo que essa redução não é possível.

O que levou a pensar em tratar a memória puramente preservativa como memória de curta duração foi a metáfora da última como um 'espaço' no qual crenças inativadas são ativadas e combinadas com outras crenças ou com percepções. A ligação entre crenças e percepções, e um 'espaço' que se confunde com a própria consciência a me pareceu algo que poderia foi fornecer um modelo para a explicação da memória puramente preservativa, por mais obscuro que isso parece à primeira vista.

A memória puramente preservativa caracteriza-se por vincular certos pensamentos presentes a certos pensamentos passados de maneira anafórica, isto é, tomando emprestada a referência dos últimos. Eis minha hipótese: poderia o caráter anafórico da memória puramente preservativa ser explicado pela combinação de elementos cognitivos ativados e presentes na memória de curta duração?

A hipótese se mostrou problemática, por dois motivos, um ligado ligado à taxonomia dos tipos de memória de acordo com a duração das mesmas e outro ligado à taxonomia dos tipos de memória quanto ao seu conteúdo.

Memória de curta duração e memória de longa duração distinguem-se pelo fato das primeiras durarem apenas alguns segundos, no máximo algumas horas, e as últimas tirarem pelo menos muitas horas, e provavelmente muitos anos, talvez décadas. Ora, sendo assim, é claro que experimentos envolvendo a mudança lenta de ambiente exigem explicações envolvendo a memória de longa duração, e não a memória de curta duração. Logo, em tais casos a memória puramente preservativa não pode ser tratada como memória de curto prazo.

Quanto ao conteúdo da memória, podemos distinguir entre memória de curta duração, memória declarativa e memória procedural. Elementos oriundos da memória declarativa e da memória procedural são ativados e combinados na memória de curta duração, mas não se confundem com essa, e aquilo do que eu preciso, em casos de mudança lenta de ambiente, são os elementos da memória declarativa.

Aqui é o ponto no qual eu chego mais perto de poderia explicar a memória puramente preservativa pela noção de memória de curta duração, pois eu poderia alegar, como disse antes, que o caráter anafórico da memória puramente preservativa se explica pela ativação das crenças relevantes, as quais são transportadas da memória declarativa para a memória de curta duração. Todavia, o problema é que se eu for conseqüente ao seguir esse modelo, então devo dar mais um passo, e aceitar que apenas traços ou índices dos elementos cognitivos são guardados na memória declarativa, sendo os mesmos reconstruídos a partir de elementos tomados da percepção, isto é, do ambiente presente. Mas isso não é a preservação do conteúdo mental prometida pela noção de que memória puramente preservativa. Ao contrário, leva a uma teoria reconstrutiva da memória, tal como as teorias de Peter Ludlow e Maurice Halbwachs.

Mas esse não é um mau resultado. Simpatizo com as teorias de Ludlow e Halbwachs. Talvez, com o percurso acima, eu possa apresentar um caso ou menos algumas intuições contrárias à teoria da memória puramente preservativa. É o caminho que me inclino a seguir.

Leitura

- Baddeley, Alan D. "Working Memory: Humans." In Encyclopedia of Learning and Memory, edited by Larry R. Squire, 638-42. New York: Macmillan, 1992.
- Burge, Tyler. "Content Preservation." The Philosophical Review 102, no. 4 (1993): 457-88.
- Burge, Tyler. "Memory and Self-Knowledge." In Externalism and Self-Knowledge, edited by Peter Ludlow and Norah Martin. Stanford: CSLI Publications, 1998.
- Burge, Tyler. "Memory and Persons." The Philosophical Review 112, no. 3 (2003): 289-338.
- Dudai, Yadin. Memory from A to Z: Keywords, Concepts and Beyond. Oxford: Oxford University Press, 2002.
- Galton, Francis. "Inquiries into Human Faculties and Its Development." In Sir Francis Galton F.R.S., ed Gavan Tredoux. Place Published, 2004 [1883]. http://galton.org/books/human-faculty/text/galton-1883-human-faculty-v4.pdf (accessed 27/3/2006).
- Izquierdo, Iván. Questões Sobre Memória. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2004.
- James, William. "The Principles of Psychology I." In Carti electronice gratuite de psihologie, free ebooks. Place Published, 1890. http://www.juxt.lx.ro/e-books/James,%20William%20-%20The%20Principles%20of%20Psychology%20Vol%20I.pdf (accessed 27/3/2006).
- Ludlow, Peter. "Social Externalism and Memory: A Problem?" In Externalism and Self-Knowledge, edited by Peter Ludlow and Norah Martin. Stanford: CSLI Publications, 1998.
- Ludlow, Peter. "Social Externalism, Self-Knowledge, and Memory." In Externalism and Self-Knowledge, edited by Peter Ludlow and Norah Martin. Stanford: CSLI Publications, 1998 [1995].
- Ludlow, Peter. "First Person Authority and Memory." In Interpretations and Causes: New Perspectives on Donald Davidson's Philosophy, edited by Mario de Caro. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 1999.
- Ludlow, Peter, and Norah Martin. "Introduction." In Externalism and Self-Knowledge, edited by Peter Ludlow and Norah Martin. Stanford: CSLI Publications, 1998.
- Schacter, Daniel L. Searching for Memory: The Brain, the Mind, and the Past. New York: Basic Books, 1996.
- Squire, Larry R. Memory and Brain. New York: Oxford University Press, 1987.

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