2006-07-02

Chomsky: fundamental

Novos Horizontes no Estudo da Linguagem e da Mente, do , recentemente lançado pela editora da Unesp, é fundamental para estudiosos da , da e da . Eis um trecho:

Um olhar cuidadoso sobre a interpretação das expressões revela muito rapidamente que, desde os estágios mais iniciais, a criança sabe muito mais do que a experiência ofereceu a ela. Isso é verdadeiro mesmo em relação a palavras simples. Em períodos de pico de aquisição da linguagem, uma criança adquire palavras numa média de cerca de uma palavra por hora, com exposição muito limitada e sob condições muito ambíguas. As palavras são entendidas de maneiras delicadas e intrincadas, as quais estão muito além do alcance de qualquer dicionário, e apenas no início de sua investigação. Quando saímos do domínio de palavras simples, a conclusão torna-se ainda mais dramática. A aquisição da linguagem em geral se parece muito com o crescimento de órgãos - é algo que acontece a uma criança, e não o que a criança efetivamente faz. E, da mesma maneira que o ambiente é reconhecido como importante, o curso geral do desenvolvimento e as características básicas do que aparece estão predeterminados pelo estado inicial. Mas esse estado inicial é uma propriedade humana comum. Assim, deve ocorrer que, em suas propriedades essenciais, e mesmo em seus pequenos detalhes, as linguagens sejam produto do mesmo molde. Um cientista marciano poderia concluir de modo razoável que há uma única linguagem humana, com diferenças apenas marginais. (pp. 34-35)

2 comentários:

  1. Opa, vou comprar esse livro. Tanx.

    Olha, se entendi bem o que o Agamben quer dizer com a sua “cera perdida” que ele diz ser o Destruição da Experiência e Origem da História, ele sustenta que essa disposição para a linguagem não implica uma mesma linguagem como uma espécie de aparato. O que há, segundo ele, é uma mesma língua. E essa distinção ocupa boa parte de seu trabalho, sendo que esse “aparato” que nos assegura uma espécie de disposição para a linguagem é referido com os estudos de genética da sociabilidade animal. Assim, dentre as produtivas notas extravagantes aos capítulos do seu ensaio, uma sobressai, tratando da “dupla” herança do homem, como natureza e cultura. Ele se refere ao trabalho do Lenneberg. Eu cito: “Antes de mais nada, deve-se observar que os mais recentes estudos sobre a linguagem tendem a demonstrar que ela não pertence inteiramente à esfera exossomática. Deste modo, paralelamente à reformulação chomskiana das teses do inatismo lingüístico, Lenneberg procurou lançar luz sobre os fundamentos biológicos da linguagem. Sem dúvida, ao contrário do que ocorre na maior parte das espécies animais (e do que Bentley e Hoy recentemente demonstraram sobre o canto dos grilos, no qual podemos então verdadeiramente perceber, com Mallarmé, a voix une et non decomposée da natureza), a linguagem humana não é integralmente inscrita no código genético. Se foi observado já por Thorpe que alguns pássaros, privados prematuramente da possibilidade de escutar o canto dos indivíduos da mesma espécie, produzem apenas um extrato do canto normal, podendo-se assim dizer que, em certa medida, eles precisam aprende-lo, no homem a exposição à linguagem é condição imprescindível para o seu aprendizado. Um fato cuja importância para a compreensão da linguagem humana jamais será suficientemente sublinhada é o de que, se a criança não for exposta a atos de fala entre os dois e os doze anos de idade, a sua possibilidade de adquirir linguagem estará definitivamente comprometida. Contrariando as afirmações de uma antiga tradição, o homem não é, deste ponto de vista, o ‘animal que possui linguagem’, mas sim o animal que dela é desprovido e que deve, portanto, recebe-la de fora.

    De resto, ao lado desses dados que trazem à luz o aspecto exossomático da linguagem, outros elementos (como a concordância na sucessão cronológica das aquisições lingüísticas nas crianças de todo o mundo, lembrada por Jackobson, ou o desequilíbrio entre os dados lingüísticos recebidos do exterior e a competência lingüística da criança, para o qual chamou a atenção Chomsky) permitem supor que a linguagem também pertença, em certa medida, à esfera endossomática. Todavia, não é necessário pensar em uma inscrição da linguagem no código genético, nem foi individuado, até o momento, algo como um gene da linguagem. O certo é que – como mostrou Lenneberg -, enquanto na maioria das espécies animais o comportamento comunicativo se desenvolve invariavelmente de acordo com leis de maturação geneticamente preestabelecidas, de sorte que, seja como for, o animal terá enfim à disposição um repertório de sinais característicos da espécie, no homem produziu-se uma separação entre a disposição para a linguagem (o estarmos prontos para a comunicação) e o processo de atualização dessa virtualidade. A linguagem humana apresenta-se, portanto, cindida originalmente em uma esfera endossomática e em uma esfera exossomática, entre as quais se estabelece (pode estabelecer-se) um fenômeno de ressonância que produz a atualização. Se a exposição à herança exossomática não intervém durante uma certa fase do desenvolvimento da plasmaticidade cerebral (que, segundo Lenneberg, tem o seu limite extremo no processo de lateralização cerebral, que se conclui por volta dos doze anos), a disposição para a linguagem é irreversivelmente perdida.

    Se isto é verdadeiro, a dualidade de herança endossomática e herança exossomática, de natureza e cultura, na espécie humana, deve ser entendida de maneira nova. Não se trata de uma justaposição que delimite duas esferas distintas e incomunicantes, mas de uma duplicidade que já está inscrita naquela própria linguagem que foi sempre vista como elemento fundamental da cultura. Aquilo que caracteriza a linguagem humana não é a sua pertinência à esfera exossomática ou à endossomática, mas o encontrar-se, por assim dizer, a cavalo sobre uma e outra e o ser, devido a isso, articulada sobre a sua diferença e, simultaneamente, sobre a sua ressonância.” pp. 72-73

    Daí o Agamben prossegue, discorrendo sobre o que, se entendi bem, o Cavell sublinha com insistência na sua leitura das Investigações: a caminhada de retorno das referências ao cotidiano. A idéia de lar a que Agamben, um tanto viajandonamente, recorre é muito próxima, para não dizer a mesma, do que Cavell reivindica na sua leitura das Investigações.

    ____________x___________

    É claro que para Agamben aquilo que Cavell rememora com o lar abandonado pela busca exilada da filosofia, digamos assim, não se chama lar, mas o “novo lar” ou ainda, benjaminianamente, a “comunidade que vem”. Em todo caso, esse “estar a cavalo” entre uma coisa e outra, entre uma descritibilidade real, ou extensa ou genética – falando grossíssimamente – e uma descritibilidade mental, lingüística, intencional – também grossissimamente -, pode ser lido domo caminhar precisando do atrito, frente ao qual a prescrição primordial é: olhe e veja (parágrafo 66)

    Pode ser pura viagem, ainda que eu pense que não o é, mas a “maneira nova” que Agamben requer parece muito com uma espécie de antídoto para a “náusea espiritual” de que fala Cavell, rememorando o legado das Investigações como “álbum”.

    Mas aqui eu já parti para outra galáxia, nem tão distante, mas outra...:-)

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  2. Legal. O livro do Chomsky tem a ver com essa história do Agamben, e é ótima leitura.

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