2011-01-18

Carros importados, carros velhos e pragmática

Na piadinha comum em almoços de domingo da classe média, o jogador de futebol vai ao Japão, encontra nas ruas um monte de carros japoneses, e diz:
(1) No Japão todo o mundo tem carro importado
Usualmente, todos os comensais adultos riem com cumplicidade da piada, tripudiando dos jogadores de futebol, supostamente inferiores em assuntos intelectuais, embora superiores nas contas bancárias. Mas -- e aqui vai minha piadinha -- essa mesma turma de parentes ou amigos de classe média pode estar falando de um filme antigo que passou na TV, e alguém pode dizer:
(2) Não gostei, pois só aparecia carro velho
E agora ninguém ri do falante, embora os carros fossem novos no momento da filmagem. Todos consideram o que o falante de (2) quis dizer, não o que disse. O que justifica a falta de igual complacência em relação ao falante imaginário de (1)?

A meu ver, nada. Nos dois casos, o ouvinte pode inferir o que o falante quis dizer, e o falante sabe que o ouvinte sabe que ele sabe etc. o que quis dizer a partir do que disse. Ou seja, temos uma implicatura clássica. Quando diz "carro importado", o falante de (1) quer dizer carro que, no Brasil, seria importado, e quando diz "carro velho", o falante de (2) quer dizer carro que hoje seria velho. Nos dois casos, o falante faz referência ao aqui e agora para falar do distante no espaço ou no tempo, e os ouvintes inferem isso facilmente. É óbvio aos ouvintes que é isso o que os falantes querem dizer -- é daí que vem a graça dos ditos --, e os jogadores de futebol imaginários são comunicadores tão competentes quanto os comensais de classe média, de modo que no quesito pragmático tudo está ok em (1) e (2). O que não está ok é exigir de um grupo alheio que só se comunique por significados literais ou semânticos, enquanto o próprio grupo se comunica via significados pragmaticamente implicitados.

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