2011-02-16

Quine e a ciência

Não se costuma pensar em Quine como um filósofo hiperintelectualista. Ao contrário, ele é famoso, entre muitas outras coisas, por ter proposto a naturalização da epistemologia. De acordo com essa proposta, as investigações epistemológicas seriam reduzidas às investigações psicológicas. Assim, uma disciplina apriorista como a epistemologia seria conduzida segundo os métodos e resultados da psicologia empírica. Isso se nos for permitido descrever tal quadro segundo a distinção entre o a priori e o a posteriori, coisa que Quine nos estimulou a não fazer. No entanto, em um capítulo que apresenta as principais falhas de Quine no que diz respeito à natureza da percepção, Burge conclui da seguinte forma, em Origens da objetividade:
Para um homem que se aliou à ciência em tantas outras questões, é impressionante que Quine tenha mostrado pouco interesse pela psicologia empírica da percepção. (p. 264)
O que Quine fez − ou deixou de fazer − para merecer essa crítica? Seu principal erro foi ter pressuposto, sem argumento algum, «que um indivíduo pode representar corpos apenas se o indivíduo pode representar a individuação e a reidentificação na forma geral, através de algum critério para a individuação» (p. 254, itálicos do autor). Mas, dado o seguinte modus tollens, a única saída é rejeitar a teoria de Quine por falsidade da conclusão, e mesmo implausibilidade:
(1) Se o indivíduo representa um corpo, então representa seu critério de individuação
(2) Uma criança pequena (a qual obviamente é um indivíduo) não representa o critério de individuação da representação de um corpo (por falta da sofisticação intelectual requerida, incluindo linguagem)
(3) Logo, uma criança pequena não representa um corpo
A conclusão segue da premissa quineana, mas é obviamente falsa, como mostra a psicologia atual, e mesmo a psicologia do tempo de Quine. Eis porque Burge critica Quine por descaso para com a ciência.

1 comentários:

  1. Concordo plenamente, cheguei a comentar de leve em minha tese que há uma certa tensão entre o naturalismo de Quine e a sua adesão (muito pouco justificada, eu acho) ao fisicalismo. Este acabou militando contra o primeiro ao fazer com Quine privilegiasse a psicologia behaviorista em detrimento de todas as outras correntes psicológicas já com achados empíricos relativamente respeitáveis em sua época (o que Ponty soube aproveitar muito bem)

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