2011-03-21

Chalmers sobre matéria e consciência

Anotações do livro The conscious mind: in search of a fundamental theory (New York e Oxford: Oxford University Press, 1996), de David Chalmers.

Como explicar a consciência?

«[…] a consciência escapa da rede da explicação redutiva. Nenhuma explicação dada totalmente em termos físicos pode alguma vez dar conta da emergência da experiência consciente.» (93)

• Isto é duplamente falso. Em primeiro lugar, é falso que tal explicação seja impossível. Em segundo lugar, é falso que não haja de fato tal tipo de explicação, pois há várias explicações de fenômenos conscientes em livros de neurologia e neurociências, e essas explicações apresentam casos nas quais experiências conscientes emergem de estados cerebrais.

«Para ter um caso contra a explicação redutiva, precisamos mostrar que a consciência não é logicamente superveniente sobre o físico. Em princípio, precisamos mostrar que ela não sobrevém globalmente — isto é, que todos os fatos microfísicos no mundo não acarretam os fatos sobre a consciência.» (93)

• Nesta passagem, o problema está na teoria da explicação pressuposta por Chalmers. Quem disse que, para um fenômeno A explicar um fenômeno B, é preciso que a totalidade dos indivíduos classificados como A "acarretem" dedutivamente o fenômeno B? Esta é uma visão ruim da natureza da explicação. Uma visão melhor diria que há explicação quando o seguinte esquema é satisfeito:

(1) O fenômeno B precisa ser explicado
(2) O fenômeno A explica o fenômeno B
(3) O fenômeno A é a melhor explicação disponível para o fenômeno B
_____
(4) Logo, o fenômeno A explica o fenômeno B

O que temos acima é um argumento abdutivo. O erro de Chalmers é requerer um argumento dedutivo.

«Como podemos argumentar que a consciência não é logicamente superveniente sobre o físico? Podemos pensar sobre o que é concebível, para argumentar diretamente pela possibilidade lógica de uma situação na qual os fatos físicos são os mesmos, mas os fatos sobre a experiência são diferentes. Podemos apenar para a epistemologia, argumentando que o tipo certo de vínculo entre | conhecimento de fatos físicos e conhecimento da consciência está ausente.» (93–94)

• O problema aqui é que Chalmers comete a falácia intensional. Quem comete essa falácia pressupõe, corretamente, que se duas coisas A e B são a mesma, a coisa A tem as mesmas propriedades que a coisa B. No entanto, quem comete essa falácia pressupõe, incorretamente, que as coisas em geral têm as propriedades que fantasiamos que elas têm. Para uma criança pequena, é concebível que um boneco inanimado de plástico faça coisas típicas de um "monstro de verdade", como morder e arranhar — mas é claro que as propriedades (ou melhor, capacidades) de poder morder e poder arranhar não pertencem ao boneco inanimado. A mesma falácia é cometida no caso do conhecimento, pois o fato de não sabermos se um fenômeno tem certa propriedade não é impedimento para que esse fenômeno de fato a tenha. Também não é impedimento para a explicação desse fenômeno, como vimos acima.

O que é a consciência?

«[…] não há conexão necessária a posteriori entre fatos físicos e fatos fenomenais.» (94)

• Chalmers está combatendo um espantalho, visto que nenhum monista requer uma "conexão necessária a posteriori", seja lá o que isso for — é difícil saber do que ele está falando, pois uma "conexão necessária" seria uma conexão que se daria em todas as situações, enquanto uma "conexão a posteriori" seria uma conexão conhecida através da experiência. No primeiro caso, a modalidade é metafísica, relativa à realidade. No segundo caso, a modalidade é epistêmica, relativa ao conhecimento. São modalidades diferentes, e melhor fazemos se as mantemos separadas, ao menos se visamos a clareza.
• Monistas não requerem uma "conexão necessária a posteriori entre fatos físicos e fatos fenomenais" — e eles não requerem isso porque suas afirmações dizem respeito aos fatos, não a "mundos possíveis". Tudo o que eles requerem é que, de fato, fenômenos da consciência emirjam de fenômenos menos complexos, o que pode muito bem ser algo contingente. O que eles têm a dizer sobre um mundo possível no qual todos os fenômenos de base são os mesmos, mas não há consciência? Podem muito bem se contentar em dizer que isso é mudança de assunto indevida, pois estamos falando do mundo real, onde tal fato não se dá. Mas também podem dizer que tal mundo é impossível, o que se mostraria por uma descrição mais detalhada do suposto "mundo possível" no qual haveria os fenômenos de base, mas não haveria fenômenos da consciência.

César Schirmer dos Santos

1 comentários:

  1. Observações pertinentes. Sou filósofo autodidata e amador, mas já me envolvi em discussões sobre esse assunto e nunca fui convencido pela argumentação que segue a linha do Chalmers.
    Pode ser que eu não tenha encontrado debatedores muito bons, mas o que geralmente percebo é que essa argumentação contra o naturalismo repousa em dois erros. Um erro é quando ela é, na verdade, trivial. Apontar que "A consciência ainda não foi reduzida ao físico" não é algo surpreendente ou persuasivo. O segundo erro, que costuma ser uma extrapolação do primeiro, consiste em um ad ignorantiam: "Não há explicação física para a consciência; logo, a consciência não é física".

    Este último argumento talvez pudesse ser ampliado para "Não pode haver explicação física para a consciência". Continuaria sem estabelecer que a consciência não é física, mas ao menos legitimaria a suspensão de juízo.

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