Anotações do livro The conscious mind: in search of a fundamental theory (New York e Oxford: Oxford University Press, 1996), de David Chalmers.
Como explicar a consciência?
«[…] a consciência escapa da rede da explicação redutiva. Nenhuma explicação dada totalmente em termos físicos pode alguma vez dar conta da emergência da experiência consciente.» (93)
• Isto é duplamente falso. Em primeiro lugar, é falso que tal explicação seja impossível. Em segundo lugar, é falso que não haja de fato tal tipo de explicação, pois há várias explicações de fenômenos conscientes em livros de neurologia e neurociências, e essas explicações apresentam casos nas quais experiências conscientes emergem de estados cerebrais.
«Para ter um caso contra a explicação redutiva, precisamos mostrar que a consciência não é logicamente superveniente sobre o físico. Em princípio, precisamos mostrar que ela não sobrevém globalmente — isto é, que todos os fatos microfísicos no mundo não acarretam os fatos sobre a consciência.» (93)
• Nesta passagem, o problema está na teoria da explicação pressuposta por Chalmers. Quem disse que, para um fenômeno A explicar um fenômeno B, é preciso que a totalidade dos indivíduos classificados como A "acarretem" dedutivamente o fenômeno B? Esta é uma visão ruim da natureza da explicação. Uma visão melhor diria que há explicação quando o seguinte esquema é satisfeito:
(1) O fenômeno B precisa ser explicado
(2) O fenômeno A explica o fenômeno B
(3) O fenômeno A é a melhor explicação disponível para o fenômeno B
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(4) Logo, o fenômeno A explica o fenômeno B
O que temos acima é um argumento abdutivo. O erro de Chalmers é requerer um argumento dedutivo.
«Como podemos argumentar que a consciência não é logicamente superveniente sobre o físico? Podemos pensar sobre o que é concebível, para argumentar diretamente pela possibilidade lógica de uma situação na qual os fatos físicos são os mesmos, mas os fatos sobre a experiência são diferentes. Podemos apenar para a epistemologia, argumentando que o tipo certo de vínculo entre | conhecimento de fatos físicos e conhecimento da consciência está ausente.» (93–94)
• O problema aqui é que Chalmers comete a falácia intensional. Quem comete essa falácia pressupõe, corretamente, que se duas coisas A e B são a mesma, a coisa A tem as mesmas propriedades que a coisa B. No entanto, quem comete essa falácia pressupõe, incorretamente, que as coisas em geral têm as propriedades que fantasiamos que elas têm. Para uma criança pequena, é concebível que um boneco inanimado de plástico faça coisas típicas de um "monstro de verdade", como morder e arranhar — mas é claro que as propriedades (ou melhor, capacidades) de poder morder e poder arranhar não pertencem ao boneco inanimado. A mesma falácia é cometida no caso do conhecimento, pois o fato de não sabermos se um fenômeno tem certa propriedade não é impedimento para que esse fenômeno de fato a tenha. Também não é impedimento para a explicação desse fenômeno, como vimos acima.
O que é a consciência?
«[…] não há conexão necessária a posteriori entre fatos físicos e fatos fenomenais.» (94)
• Chalmers está combatendo um espantalho, visto que nenhum monista requer uma "conexão necessária a posteriori", seja lá o que isso for — é difícil saber do que ele está falando, pois uma "conexão necessária" seria uma conexão que se daria em todas as situações, enquanto uma "conexão a posteriori" seria uma conexão conhecida através da experiência. No primeiro caso, a modalidade é metafísica, relativa à realidade. No segundo caso, a modalidade é epistêmica, relativa ao conhecimento. São modalidades diferentes, e melhor fazemos se as mantemos separadas, ao menos se visamos a clareza.
• Monistas não requerem uma "conexão necessária a posteriori entre fatos físicos e fatos fenomenais" — e eles não requerem isso porque suas afirmações dizem respeito aos fatos, não a "mundos possíveis". Tudo o que eles requerem é que, de fato, fenômenos da consciência emirjam de fenômenos menos complexos, o que pode muito bem ser algo contingente. O que eles têm a dizer sobre um mundo possível no qual todos os fenômenos de base são os mesmos, mas não há consciência? Podem muito bem se contentar em dizer que isso é mudança de assunto indevida, pois estamos falando do mundo real, onde tal fato não se dá. Mas também podem dizer que tal mundo é impossível, o que se mostraria por uma descrição mais detalhada do suposto "mundo possível" no qual haveria os fenômenos de base, mas não haveria fenômenos da consciência.
César Schirmer dos Santos
Observações pertinentes. Sou filósofo autodidata e amador, mas já me envolvi em discussões sobre esse assunto e nunca fui convencido pela argumentação que segue a linha do Chalmers.
ResponderExcluirPode ser que eu não tenha encontrado debatedores muito bons, mas o que geralmente percebo é que essa argumentação contra o naturalismo repousa em dois erros. Um erro é quando ela é, na verdade, trivial. Apontar que "A consciência ainda não foi reduzida ao físico" não é algo surpreendente ou persuasivo. O segundo erro, que costuma ser uma extrapolação do primeiro, consiste em um ad ignorantiam: "Não há explicação física para a consciência; logo, a consciência não é física".
Este último argumento talvez pudesse ser ampliado para "Não pode haver explicação física para a consciência". Continuaria sem estabelecer que a consciência não é física, mas ao menos legitimaria a suspensão de juízo.