2011-09-21

A semântica dos nomes próprios não é algo assim tão simples, ó Kripke

Como mostra Ludlow em Descriptions (Stanford Encyclopedia of Philosophy):
Still, from a linguistic point of view, we should note that there are features of names in natural language that make them appear to be similar to descriptions. Names can take determiners like ‘a’ and ‘the’ (indeed in some languages they routinely do so), which suggests that they are behaving more like nouns than like saturated referring expression. Indeed it is a widespread linguistic analysis of names that they have possibly empty determiner positions, so that a name like Aristotle has at a minimum the following structure:

[DP [Det ∅ ] [N Aristotle]].

In addition, Burge (1973) offered a number of arguments in of support the idea that names really are predicates, and further support has come from Hornsby (1976), Larson and Segal (1995) and Elugardo (2002).

2011-07-05

2011-06-22

Brincando de tautologia no software de lógica

Para gerar online a tabela-verdade de uma proposição tautológico-caetaneana como:
Amanhã o mundo vai acabar, ou não
Vá em:
http://www-cs-students.stanford.edu/~silver/truth/
e escreva algo como:
AmanhaMundoAcaba | ~AmanhaMundoAcaba
e tecle Enter. O resultado é:
AmanhaMundoAcaba | 
---------------------
T                | T
F                | T

2011-05-11

A capacidade de evocar memórias livremente requer domínio da linguagem?

César Schirmer dos Santos

O que é requerido para alguém poder evocar alguma coisa de memória? A linguagem é requerida? Levando em conta que macacos-rhesus são capazes de evocar algo de memória, e tudo indica que eles não têm linguagem, segue que a linguagem não é requerida.

Uma coisa é ser capaz de reconhecer alguma coisa que já foi percebida no passado, e está sendo percebida no presente. Outra coisa, bem diferente, é ser capaz de evocar livremente alguma coisa que foi percebida no passado. Nós humanos somos capazes de fazer isso, talvez porque sejamos capazes de formar uma evocação pelo uso da linguagem. Essas duas capacidades, o reconhecimento e a evocação livre, são duas modalidades de memória. Há evidências abundantes de que diversos animais que parecem não ter linguagem são capazes de reconhecer. Mas não havia evidências de que tais seres são capazes de evocar. Até agora.

Benjamin M. Basile e Robert R. Hampton, psicólogos da Universidade Emory, de Atlanta, nos Estados Unidos, demonstraram que macacos-rhesus são capazes de evocar memórias, apesar de, ao que tudo indica, não serem dotados de linguagem. Basile e Hampton montaram um experimento no qual se pede a indivíduos da espécie rhesus que reproduzam em uma tela uma configuração de cores que foi percebida no passado, mas não está sendo percebida no presente. Os indivíduos foram capazes de realizar a tarefa, o que demonstra que são dotados de memória evocativa.

Como os indivíduos da espécie rhesus foram capazes de evocar memórias? A pesquisa de Basile e Hampton indica que não foi através da linguagem. Seus resultados sugerem que a adaptação que permite a memória evocativa nos macacos-rhesus se deu há 30 milhões de anos, bem antes da aquisição da linguagem na espécie humana ou nas espécies que a antecedem na cadeia filogenética.

Os resultados da pesquisa de Basile e Hampton têm impacto na concepção do que é requerido para haver memória evocativa em humanos. Se eles são capazes de evocar memórias sem empregar uma linguagem, então tudo indica que podemos fazer a mesma coisa. Assim sendo, dado que tais macacos têm tal capacidade, ao que parece nós também a temos, de modo que não é preciso possuir linguagem para ser capaz de evocar uma memória.

Fontes Benjamin M. Basile e Robert R. Hampton, “Monkeys recall and reproduce simple shapes from memory”, Current Biology, 2011; Nicholas Bakalar, “Monkeys’ memories can stretch beyond what’s in front of them”, The New York times, 2 de maio de 2011.
César Schirmer dos Santos
cesarschirmer @ gmail.com
Instituto de Desenvolvimento Cultural
Porto Alegre, RS, Brasil

2011-05-09

O que os livros de epistemologia chamam de “conhecimento”?


César Schirmer dos Santos

Com sua busca frenética por uma tal de “crença verdadeira justificada”, uma boa parte dos atuais manuais de epistemologia, mesmo aqueles voltados a um público iniciante, deixam perplexos aos leitores não iniciados nos pressupostos da nova escolástica que vigora nas publicações de epistemologia – chamo de “nova escolástica” ao conjunto de pressupostos e de omissões que compõem os conteúdos e roteiros ritualizados nos manuais mais populares no mercado editorial e mais influentes entre os especialistas e professores. Não parece haver muito do que normalmente reconhecemos como conhecimento em tais manuais, e há discussões minuciosas sobre questões cuja pertinência é dada como óbvia, embora – como seria de se esperar, é claro – os pressupostos e motivações fundamentais da própria escolástica que os anima não sejam devidamente explicitados. Levando isso em conta, apresento um pequeno esclarecimento, em favor dos leitores que ainda não desistiram totalmente de tais obras.

Na literatura mais geral sobre a investigação do conhecimento, incluindo tanto os novos cânones quanto os novos hereges, de maneira geral o conhecimento recebe duas concepções complementares. Em primeiro lugar, há a concepção do conhecimento como base na qual de fato nos apoiamos, muitas vezes de maneira tácita, na nossa lida com o mundo, com os outros e conosco mesmos. Em segundo lugar, há a concepção do conhecimento como uma conquista individual penosa, e digna de elogio. Essa segunda concepção está no cerne da nova escolástica.

Um exemplo de epistemólogo do primeiro tipo é Ian Hacking. Sua investigação epistemológica diz respeito à inferência provável.[1] Sua base é a noção foucaultiana de saber. De acordo com essa concepção, na nossa vida social dispomos de diversos conjuntos organizados de conhecimentos, os quais são mantidos, aprimorados e transmitidos por especialistas. Os especialistas dispõem de teorias, de hipóteses e de preconceitos sobre seus objetos de investigação, os quais formam o corpo dos seus conhecimentos de superfície, os quais flutuam e mudam com bastante frequência. Mas os especialistas também dispõem de um arcabouço conceitual que dá sentido aos seus conhecimentos de superfície. Esse arcabouço é o saber. “Savoir [saber] não é o conhecimento no sentido de um punhado de proposições sólidas. Esse conhecimento ‘de nível profundo’ é mais como um conjunto postulado de regras que determina que tipo de asserções vão contar como verdadeiras ou falsas em algum domínio. Os tipos de coisas a serem ditas sobre o cérebro em 1780 não são os tipos de coisas a serem ditas vinte e cinco anos depois. Isso não é assim porque temos diferentes crenças sobre cérebros, mas porque ‘cérebro’ denota um novo tipo de objeto no discurso posterior, e ocorre em diferentes tipos de asserções”.[2] Dificilmente veremos tal tipo de contribuição nos novos livros introdutórios de epistemologia, o que apenas dificulta a vida de quem busca na epistemologia algum esclarecimento sobre as articulações do que usualmente vemos como conhecimento.

Um exemplo de epistemólogo do segundo tipo é Duncan Pritchard. Ele nos diz que “.... dizer que alguém tem conhecimento é creditar essa pessoa com um certo tipo de realização”.[3] Essa concepção da teoria do conhecimento se preocupa em estabelecer as condições nas quais poderíamos dizer que alguém merece ser reconhecido como um realizador ou conquistador epistêmico. Uma dessas condições seria a crença: “Mas para que isso seja uma realização sua, então a crença na proposição é essencial, visto que de outro modo a correção da proposição, onde for correta, não lhe dá crédito algum”.[4]

Na segunda concepção de conhecimento, a discussão sobre crenças verdadeiras e justificadas é fundamental, dado que alguns epistemólogos veem tais condições como cada uma necessária, em conjunto suficientes para se reconhecer alguém como conhecedor, enquanto outros ou consideram o conjunto insuficiente, ou rejeitam a necessidade de uma ou outra dessas condições. Na primeira concepção de conhecimento, o uso da metáfora chomskyana dos níveis profundo e superficial leva o epistemólogo a investigar (1) o que as pessoas usam como arcabouço conceitual, (2) quais suas teorias, hipóteses e preconceitos e (3) a articulação entre o nível profundo e o nível de superfície.

Enfim, essas são as duas principais maneiras de analisar o conhecimento. Elas são complementares, dado que a concepção que se articula em conhecimento na superfície mais saber do arcabouço conceitual profundo esclarece diversos aspectos do conhecimento que reconhecemos de maneira quase intuitiva, enquanto a concepção mais tímida da nova escolástica traz uma importante reflexão sobre as condições nas quais dizemos que alguém conhece alguma coisa. Ao ler os manuais da nova escolástica, você precisa ter em mente que esses pressupõem, de maneira indevida, apenas a segunda concepção, e por isso omitem discussões sobre a primeira concepção. Cabe a nós leitores ter isso em mente, e retirar o que há de proveitoso em tais leituras.

César Schirmer dos Santos
cesarschirmer @ gmail.com
Instituto de Desenvolvimento Cultural
Porto Alegre, RS, Brasil


[1] Ver Ian Hacking, Ontologia histórica, p. 38.
[2] Hacking, Ontologia histórica, p. 93.
[4] Idem.

2011-05-04

A sexualidade como um superávit de vida

Um trecho do maravilhoso voto do ministro Ayres Britto em defesa da união civil homoafetiva:
«Por conseguinte, cuida-se de proteção constitucional que faz da livre disposição da sexualidade do indivíduo um autonomizado instituto jurídico. Um tipo de liberdade que é, em si e por si, um autêntico bem de personalidade. Um dado elementar da criatura humana em sua intrínseca dignidade de universo à parte. Algo já transposto ou catapultado para a inviolável esfera da autonomia de vontade do indivíduo, na medida em que sentido e praticado como elemento da compostura anímica e psicofísica (volta-se a dizer) do ser humano em busca de sua plenitude existencial. Que termina sendo uma busca de si mesmo, na luminosa trilha do “Torna-te quem és”, tão bem teoricamente explorada por Friedrich Nietzsche. Uma busca da irrepetível identidade individual que, transposta para o plano da aventura humana como um todo, levou Hegel a sentenciar que a evolução do espírito do tempo se define como um caminhar na direção do aperfeiçoamento de si mesmo (cito de memória). Afinal, a sexualidade, no seu notório transitar do prazer puramente físico para os colmos olímpicos da extasia amorosa, se põe como um plus ou superávit de vida. Não enquanto um minus ou déficit existencial. Corresponde a um ganho, um bônus, um regalo da natureza, e não a uma subtração, um ônus, um peso ou estorvo, menos ainda a uma reprimenda dos deuses em estado de fúria ou de alucinada retaliação perante o gênero humano.»
-- Ayres Britto

No Supremo Tribunal Federal, via Gay Brasil

Um assassinato sem base alguma

O André Forastieri argumenta que o assassinato de Osama bin Laden não tem base alguma, e contraria os valores que embasariam a superioridade dos EUA sobre os terroristas:
«Osama Bin Laden estava em casa no Paquistão. O presidente dos Estados Unidos, em Washington, deu a ordem: matem. Os helicópteros pousaram. A tropa de elite cercou a casa e entrou atirando. Enfrentaram reação - quarenta minutos de tiroteio. Abateram os quatro homens que estavam com Bin Laden e uma mulher - talvez sua esposa.


Mataram Bin Laden, um tiro no peito e um no rosto. Tiraram fotos dos cadáveres. Levaram o corpo de Bin Laden para o porta-aviões, base da operação. Jogaram o corpo de Bin Laden no mar. Barack Obama assumiu a responsabilidade: fui eu.


É mandante de assassinato. Não há justificativa ética para a ação de Obama. Estamos em 2011. O país mais poderoso do mundo não tem direito de se comportar como o Bope, nem seu presidente como um Capitão Nascimento. Os Estados Unidos são um império - diferente dos anteriores, mas um império mesmo assim. Possuem longo histórico de intervenção em democracias, de apoio a ditadores sanguinários e coisas piores, quando interessante para seus negócios.


Já foi bem pior, e quem cresceu em um Brasil governado por ditadores militares lembra bem. Execução sumária de inimigos indefesos vai um pouco além do aceitável a esta altura do campeonato. Barack Obama não era a face da mudança? Osama Bin Laden era perigoso? Sem dúvida. No momento em que foi morto? Não.


Poderia perfeitamente ser capturado e levado a julgamento, de preferência em corte internacional. A Al Qaeda não matou só americanos em todos os seus anos de atividade. Não se trata de descobrir para que lado da balança pende a superioridade moral. As ações da Al-Qaeda são indefensáveis. Muitas ações do governo dos Estados Unidos, também (e aliás, do governo brasileiro, também). Inocentes morreram e morrerão dos dois lados da "Guerra Ao Terror", que nem deveria existir.


Também não se trata de escolher um lado. Para qualquer brasileiro, a rendição ao estilo de vida ocidental é muito mais convidativa do que a opção pela lei islâmica. Muito melhor viver sob a constituição americana que sob a sharia. Isso não nos desobriga de ter um cérebro e usá-lo, e nem de reunir informações e analisá-las. Qualquer cenário em que só existem duas opções deve ser em princípio rejeitado - em política, ainda mais.


E principalmente a questão não é se Bin Laden "merecia" morrer. Todos merecemos morrer e morreremos. Se quem mata uma pessoa merece a pena de morte, que fazer com quem matou milhares? Quantos inocentes morreram nas guerras do Iraque, do Afeganistão?


Vamos executar Bush, Obama, os soldados que jogaram as bombas? Por que "em guerra é diferente"? Onde isso acaba? Enquanto os Estados Unidos continuarem a se comportar de maneira
imperial, novos Bin Ladens nascerão, e a Al-Qaeda ou similares sobreviverão. Como a Hidra da mitologia, para cada cabeça cortada, duas nascerão.


Barack Obama teve a chance de interromper este processo, ainda que temporária ou parcialmente. Tivesse ele ordenado a prisão e julgamento de Osama Bin Laden, daria demonstração inquestionável de superioridade moral. Justamente no momento em que os povos árabes se rebelam contra regimes opressores e lutam pelo estabelecimento de democracias, Obama ao mundo: a lei não vale para os Estados Unidos.


De olho na eleição do ano que vem, mandou matar Osama. Se portou como seus, nossos inimigos. Ganhará a eleição de 2012. Barack Obama foi vendido como um adeus à Era Bush. Mas faz governo extraordinariamente parecido, desde o início, quando indicou veteranos de Wall Street para os principais cargos da economia, no meio de uma crise causada exatamente por Wall Street. As raposas estão tomando conta do galinheiro, com os resultados previsíveis.


Em política externa, continuou as guerras do antecessor, manteve Guantánamo, passou vergonha com o Wikileaks. Como todo Democrata, rebola para não ser acusado de fraco. Negro, de origem exótica e nome esquisito, acuado pelos concorrentes Republicanos brancos e ricos, carregando um governo medíocre nas costas, Obama gastou sua última bala e mandou assassinar Bin Laden.


O que Obama significou morreu. Osama vive.»
-- André Forastieri
O texto vem da sua postagem "O assassinato de Osama e a morte de Obama", no seu blog no R7.

Há ligação entre esta postagem e as anteriores:

Os nomes, a memória e a ditadura

O filósofo Vladimir Safatle reflete sobre a relação entre os nomes que usamos para os lugares públicos e coisas das quais lembramos, ou deveríamos lembrar. Ele vê o uso de um nome como "Presidente Médici" para uma cidade como uma evidência de que não entendemos o que aconteceu no passado recente do Brasil. Ele também introduz as noções de "memória social" e de "substância normativa":
«Em Rondônia, há uma pequena cidade chamada Presidente Médici. Este é o mesmo nome de um estádio de futebol em Sergipe.

Os paulistanos que quiserem viajar de carro para Sorocaba conhecerão a rodovia Castello Branco. Aqueles que procurarem uma via sem semáforos para o centro da capital paulista poderão pegar o elevado Costa e Silva.

Há mesmo alguns paulistanos que moram na rua Henning Boilesen: nome de um empresário dinamarquês, radicado no Brasil, que financiava generosamente a Operação Bandeirante e que, em troca, podia assistir e participar de torturas contra presos políticos na ditadura militar.

Há alguns anos, os são-carlenses foram, enfim, privados da vergonha de andar pela rua Sérgio Fleury: nome de um dos torturadores mais conhecidos da história brasileira. Estes são apenas alguns exemplos da maneira aterradora com que o dever de memória é praticado no Brasil.

Se monumentos, cidades e lugares públicos podem receber o nome seja de ditadores que transformaram o Brasil em um Estado ilegal resultante de um golpe de Estado seja de torturadores sádicos é porque muito ainda falta para que a memória social sirva como garantia de que o pior não se repetirá. Sem esta garantia vinda da memória, os crimes do passado continuarão a destruir a substância normativa do presente, a servir de ameaça surda à nossa democracia.

Lembremos como o Brasil foi capaz de legalizar o golpe de Estado em sua Constituição de 1988. Basta lermos o artigo 142, no qual as Forças Armadas são descritas como "garantidoras dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem". Ou seja, basta, digamos, o presidente do Senado pedir a intervenção militar em garantia da lei (mas qual? Sob qual interpretação?) e da ordem (social? Moral? Jurídica?) para legalizar constitucionalmente um golpe militar.

Tudo isso demonstra como ainda não há acordo sobre o que significou nosso passado recente. Por isso, ele teima em não morrer. Um núcleo autoritário e violador dos direitos humanos nunca foi apagado de nosso país. Não é por acaso que somos o único país latino-americano onde o número de casos de tortura em prisões cresceu em relação à ditadura.

O que não deve nos surpreender, já que ninguém foi preso, nenhuma mea-culpa dos militares foi feita, ninguém que colaborou diretamente com a construção de uma máquina de crimes estatais contra a humanidade foi objeto de repulsa social.

Que a criação de uma Comissão da Verdade possa, ao menos, fazer com que o Brasil pare de insultar a memória dos que sofreram nas mãos de um Estado ilegal governado por usurpadores de poder.

Que ninguém mais precise morar em Presidente Médici.»

-- Vladimir Safatle
A demanda por um pedido de desculpas da parte dos militares me parece justificada, dado que tal pedido de desculpas seria uma manifestação de compromisso com bases normativas que são reconhecidas e aceitas pela instituição, mas foram burladas no passado. Caso as Forças Armadas pedissem desculpas, estariam demonstrando que têm compromisso com a ordem legal que devem proteger. Mas, é claro, entre um mero ritual vazio de desculpas públicas e um compromisso concreto com tais valores no presente, o mais importante é o compromisso concreto, quer seja exteriorizado no pedido de desculpas, quer não. Até mesmo porque desculpas mesmo, aquelas que mais contam, são as que vêm espontaneamente do culpado, não aquelas que se originam de cobranças vindas de outros. Isso porque as desculpas são como o Perdão. No fundo, no fundo, ou o perdão é incondicionado, ou não é Perdão, com P maiúsculo. O mesmo se dá com as desculpas.

Quanto aos nomes, mais importa entender o que significam do que mudá-los por mudá-los, pois o importante é lembrar para entender. Concordo com Safatle que seria perturbador morar em uma rua que homenageia o sádico Henning Boilesen, dado que se soubesse quem ele foi, e do seu gosto por assistir sessões de tortura. Concordo também que o fato de haver uma rua com tal nome indica que não sabemos o que aconteceu. Mas eu não aceitaria tomaria como o ideal que houvesse mudanças de tais nomes de cima para baixo. Uma boa mudança de nomes, em tais casos, deveria vir de baixo pra cima, isto daqueles que vivem nos locais nomeados, e que desejariam a mudança por não tolerar a carga do nome. Assim sendo, eu diria que o problema não é que alguém "precise" morar em uma cidade chamada de "Presidente Médici", mas sim que alguém tolere tal coisa, dado que saiba o que todos devem saber sobre esta personalidade, e sobre os valores democráticos e republicanos.

Se uma Comissão da Verdade, aos moldes do que houve na África do Sul, trouxesse ao público os devidos esclarecimentos, seria uma boa coisa.

O artigo de Safatle foi publicado na seção Opinião da Folha de S.Paulo em 2011-05-03, sob o título "Insultos à memória". Via OAB-RJ.

Atualizado 2011-05-05 8h48

A "justiça", de Nuremberg a Abbottabad

O Antônio Mello descreve muito bem a diferença entre o modo como os vencedores da Segunda Guerra Mundial trataram os nazistas e o modo como Obama e Clinton trataram Osama bin Laden:
«O que uma geração deixa de mais valioso para as que a sucedem são seus valores. E, se compararmos o mundo de hoje com o de há mais de 50 anos devemos nos preocupar ao invés de regozijar.

Em 1945, terminada a II Guerra Mundial, criminosos de guerra foram levados a julgamento em Nuremberg. Qual o sentido daquilo? Diferenciar-nos dos criminosos. Era preciso que ficasse claro que aqueles homens que ordenaram o assassinato de milhões de seres humanos tinham valores diferentes dos nossos. Mas que, mesmo reconhecendo suas atitudes abjetas, reconhecíamos neles sua humanidade, e dávamos a eles o que não deram às suas vítimas: o direito a um julgamento.»

Agora, o Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, presidente da nação mais poderosa do mundo, diz que foi feita justiça, quando soldados dos Estados Unidos assassinam um homem desarmado, em vez de levá-lo a julgamento ....

-- Antônio Mello
Creio que os vencedores de meados do século 20 não teria estômago para o que os novos donos do mundo chamam de "justiça".

Os nazistas foram julgados em Nuremberg, 55 anos atrás. Osama bin Laden, por sua vez, foi executado em frente à família, e também aos espectadores exclusivos e "privilegiados" do reality show que virou snuff movie.

Foi "justiça" sem julgamento.

É moral comemorar a morte do inimigo?

Eis um argumento da filósofa Christine Korsgaard, da Universidade de Harvard, sobre a moralidade de comemorar a morte do inimigo:
«A maior parte das pessoas acredita que a matança que fazemos na guerra é justificada como a única maneira de desabilitar um inimigo cuja causa acreditamos ser injusta .... E, embora seja mais controverso, muitas pessoas acreditam, ou ao menos sentem, que aqueles que matam merecem morrer como retribuição pelos seus crimes.

Mas, se nós confundimos o desejo de derrotar um inimigo com o desejo de retribuição contra um criminoso, nos arriscamos a formar atitudes que são injustificadas e feitas - a atitude que a morte do nosso inimigo não é apenas um meio de desabilitá-lo, mas é em si mesma uma espécie de vitória para nós, ou talvez mesmo a atitude que nosso inimigo merece a morte porque ele é nosso inimigo.

[É importante] não confundir o desejo de retribuição com o desejo de derrotar um inimigo. Mas porque o terrorismo participa tanto do crime quanto da guerra, é perfeitamente natural, e talvez legítimo, ter ambas atitudes com respeito a Osama bin Laden: pensar que temos que desabilitá-lo, e pensar que ele merece morrer.

Se temos qualquer sentimento de vitória ou triunfo no caso, deve ser porque tivemos sucesso em desabilitá-lo - não porque ele está morto.»

-- Christine Korsgaard

O argumento foi traduzido a partir do artigo "Is It Wrong To Celebrate Bin Laden's Death?", de Linton Weeks, publicado na revista online npr.

2011-03-21

Chalmers sobre matéria e consciência

Anotações do livro The conscious mind: in search of a fundamental theory (New York e Oxford: Oxford University Press, 1996), de David Chalmers.

Como explicar a consciência?

«[…] a consciência escapa da rede da explicação redutiva. Nenhuma explicação dada totalmente em termos físicos pode alguma vez dar conta da emergência da experiência consciente.» (93)

• Isto é duplamente falso. Em primeiro lugar, é falso que tal explicação seja impossível. Em segundo lugar, é falso que não haja de fato tal tipo de explicação, pois há várias explicações de fenômenos conscientes em livros de neurologia e neurociências, e essas explicações apresentam casos nas quais experiências conscientes emergem de estados cerebrais.

«Para ter um caso contra a explicação redutiva, precisamos mostrar que a consciência não é logicamente superveniente sobre o físico. Em princípio, precisamos mostrar que ela não sobrevém globalmente — isto é, que todos os fatos microfísicos no mundo não acarretam os fatos sobre a consciência.» (93)

• Nesta passagem, o problema está na teoria da explicação pressuposta por Chalmers. Quem disse que, para um fenômeno A explicar um fenômeno B, é preciso que a totalidade dos indivíduos classificados como A "acarretem" dedutivamente o fenômeno B? Esta é uma visão ruim da natureza da explicação. Uma visão melhor diria que há explicação quando o seguinte esquema é satisfeito:

(1) O fenômeno B precisa ser explicado
(2) O fenômeno A explica o fenômeno B
(3) O fenômeno A é a melhor explicação disponível para o fenômeno B
_____
(4) Logo, o fenômeno A explica o fenômeno B

O que temos acima é um argumento abdutivo. O erro de Chalmers é requerer um argumento dedutivo.

«Como podemos argumentar que a consciência não é logicamente superveniente sobre o físico? Podemos pensar sobre o que é concebível, para argumentar diretamente pela possibilidade lógica de uma situação na qual os fatos físicos são os mesmos, mas os fatos sobre a experiência são diferentes. Podemos apenar para a epistemologia, argumentando que o tipo certo de vínculo entre | conhecimento de fatos físicos e conhecimento da consciência está ausente.» (93–94)

• O problema aqui é que Chalmers comete a falácia intensional. Quem comete essa falácia pressupõe, corretamente, que se duas coisas A e B são a mesma, a coisa A tem as mesmas propriedades que a coisa B. No entanto, quem comete essa falácia pressupõe, incorretamente, que as coisas em geral têm as propriedades que fantasiamos que elas têm. Para uma criança pequena, é concebível que um boneco inanimado de plástico faça coisas típicas de um "monstro de verdade", como morder e arranhar — mas é claro que as propriedades (ou melhor, capacidades) de poder morder e poder arranhar não pertencem ao boneco inanimado. A mesma falácia é cometida no caso do conhecimento, pois o fato de não sabermos se um fenômeno tem certa propriedade não é impedimento para que esse fenômeno de fato a tenha. Também não é impedimento para a explicação desse fenômeno, como vimos acima.

O que é a consciência?

«[…] não há conexão necessária a posteriori entre fatos físicos e fatos fenomenais.» (94)

• Chalmers está combatendo um espantalho, visto que nenhum monista requer uma "conexão necessária a posteriori", seja lá o que isso for — é difícil saber do que ele está falando, pois uma "conexão necessária" seria uma conexão que se daria em todas as situações, enquanto uma "conexão a posteriori" seria uma conexão conhecida através da experiência. No primeiro caso, a modalidade é metafísica, relativa à realidade. No segundo caso, a modalidade é epistêmica, relativa ao conhecimento. São modalidades diferentes, e melhor fazemos se as mantemos separadas, ao menos se visamos a clareza.
• Monistas não requerem uma "conexão necessária a posteriori entre fatos físicos e fatos fenomenais" — e eles não requerem isso porque suas afirmações dizem respeito aos fatos, não a "mundos possíveis". Tudo o que eles requerem é que, de fato, fenômenos da consciência emirjam de fenômenos menos complexos, o que pode muito bem ser algo contingente. O que eles têm a dizer sobre um mundo possível no qual todos os fenômenos de base são os mesmos, mas não há consciência? Podem muito bem se contentar em dizer que isso é mudança de assunto indevida, pois estamos falando do mundo real, onde tal fato não se dá. Mas também podem dizer que tal mundo é impossível, o que se mostraria por uma descrição mais detalhada do suposto "mundo possível" no qual haveria os fenômenos de base, mas não haveria fenômenos da consciência.

César Schirmer dos Santos

2011-02-16

Quine e a ciência

Não se costuma pensar em Quine como um filósofo hiperintelectualista. Ao contrário, ele é famoso, entre muitas outras coisas, por ter proposto a naturalização da epistemologia. De acordo com essa proposta, as investigações epistemológicas seriam reduzidas às investigações psicológicas. Assim, uma disciplina apriorista como a epistemologia seria conduzida segundo os métodos e resultados da psicologia empírica. Isso se nos for permitido descrever tal quadro segundo a distinção entre o a priori e o a posteriori, coisa que Quine nos estimulou a não fazer. No entanto, em um capítulo que apresenta as principais falhas de Quine no que diz respeito à natureza da percepção, Burge conclui da seguinte forma, em Origens da objetividade:
Para um homem que se aliou à ciência em tantas outras questões, é impressionante que Quine tenha mostrado pouco interesse pela psicologia empírica da percepção. (p. 264)
O que Quine fez − ou deixou de fazer − para merecer essa crítica? Seu principal erro foi ter pressuposto, sem argumento algum, «que um indivíduo pode representar corpos apenas se o indivíduo pode representar a individuação e a reidentificação na forma geral, através de algum critério para a individuação» (p. 254, itálicos do autor). Mas, dado o seguinte modus tollens, a única saída é rejeitar a teoria de Quine por falsidade da conclusão, e mesmo implausibilidade:
(1) Se o indivíduo representa um corpo, então representa seu critério de individuação
(2) Uma criança pequena (a qual obviamente é um indivíduo) não representa o critério de individuação da representação de um corpo (por falta da sofisticação intelectual requerida, incluindo linguagem)
(3) Logo, uma criança pequena não representa um corpo
A conclusão segue da premissa quineana, mas é obviamente falsa, como mostra a psicologia atual, e mesmo a psicologia do tempo de Quine. Eis porque Burge critica Quine por descaso para com a ciência.

2011-01-19

Gouhier sobre o dualismo cartesiano

Ninguém expressou melhor do que Henri Gouhier o espírito do dualismo cartesiano:
Abducere mentem a sensibus...
a sensibus supõe que a mens está ligada a um corpo pelo qual lhe vem os sensus que a modificam. 
abducere supõe que essa mens é capaz dessa liberação. 
Assim, a "dúvida metódica" não é apenas uma introdução à metafísica: ela postula uma metafísica. Há uma filosofia da operação que inaugura a filosofia. A prova crítica da Primeira Meditação só tem sentido para um homem cuja alma esteja intimamente ligada a seu corpo, mas que todavia permanece livre para resistir às pressões da vida sensível. 
Em La pensée métaphysique de Descartes, p. 321.

2011-01-18

Carros importados, carros velhos e pragmática

Na piadinha comum em almoços de domingo da classe média, o jogador de futebol vai ao Japão, encontra nas ruas um monte de carros japoneses, e diz:
(1) No Japão todo o mundo tem carro importado
Usualmente, todos os comensais adultos riem com cumplicidade da piada, tripudiando dos jogadores de futebol, supostamente inferiores em assuntos intelectuais, embora superiores nas contas bancárias. Mas -- e aqui vai minha piadinha -- essa mesma turma de parentes ou amigos de classe média pode estar falando de um filme antigo que passou na TV, e alguém pode dizer:
(2) Não gostei, pois só aparecia carro velho
E agora ninguém ri do falante, embora os carros fossem novos no momento da filmagem. Todos consideram o que o falante de (2) quis dizer, não o que disse. O que justifica a falta de igual complacência em relação ao falante imaginário de (1)?

A meu ver, nada. Nos dois casos, o ouvinte pode inferir o que o falante quis dizer, e o falante sabe que o ouvinte sabe que ele sabe etc. o que quis dizer a partir do que disse. Ou seja, temos uma implicatura clássica. Quando diz "carro importado", o falante de (1) quer dizer carro que, no Brasil, seria importado, e quando diz "carro velho", o falante de (2) quer dizer carro que hoje seria velho. Nos dois casos, o falante faz referência ao aqui e agora para falar do distante no espaço ou no tempo, e os ouvintes inferem isso facilmente. É óbvio aos ouvintes que é isso o que os falantes querem dizer -- é daí que vem a graça dos ditos --, e os jogadores de futebol imaginários são comunicadores tão competentes quanto os comensais de classe média, de modo que no quesito pragmático tudo está ok em (1) e (2). O que não está ok é exigir de um grupo alheio que só se comunique por significados literais ou semânticos, enquanto o próprio grupo se comunica via significados pragmaticamente implicitados.

2010-12-15

Um casuísmo lamentável

Eis um casuísmo lamentável:
«Segundo as diretrizes da Capes só serão aceitos trabalhos de docentes ou discentes inscritos em Programas dedicados a Pesquisa em Filosofia.»
Isto faz parte das diretrizes para autores da revista Philósophos, e talvez também faça parte das diretrizes de outras revistas.

Na prática, isto quer dizer que só alguns professores e seus alunos atuais podem publicar na revista. Isto é conveniente para eles, pois seu esforço vira pontos no Lattes, o que melhora suas chances de conseguir empregos e outras vantagens. Mas sacana com quem já se doutorou, pois agora está impedido de publicar em uma revista Qualis B2, o que cria uma barreira para pontuar (é a contraparte da reserva para alguns) e obstáculos em concursos públicos, por exemplo.

O mais cruel de tudo é que essa regra barra as publicações de doutores desempregados, o que pode ajudar a mantê-los... desempregados. Afinal de contas, os empregos para doutores costumam exigir... publicações.

É claro, minha queixa também é casuísta, pois sou um desses doutores barrados no baile. Mas não é injusta, pois espero apenas uma blind review simples. E, bem, a Capes acha que já não posso publicar, só porque concluí o doutorado e não estou empregado em um programa dedicado à pesquisa em filosofia? Duvido muito, pois seria o ardil 22: não estou no programa porque não publico, mas não publico porque não estou no programa. Uma instituição séria e respeitada como a Capes não seria louca nem estúpida desse jeito.

Aliás, também duvido muito que a maioria dos professores e alunos de programas de pesquisa que se esforçam para publicar queiram tal privilégio, o qual tira indevidamente muito do brilho dos seus trabalhos publicados.

PS - Mais aqui

2010-12-08

Agora um pouco de estrutura profunda

Agora um exercício de estrutura profunda, o que é mais fácil, apesar do nome mais assustador.


O objetivo de tudo isso é fazer epistemologia ao estilo do new linguistic turn detectado por Ludlow. Vamos ver no que dá.